ENTREVISTA - PAULO MORELLI – DIRETOR
Paulo Morelli nasceu em São Paulo, em 1956, e começou a fazer filmes super-8 aos 12. Nos anos 80, enquanto cursava a Faculdade de Arquitetura, fez vídeos experimentais com um grupo de amigos. Com esses amigos, criou a produtora independente Olhar Eletrônico, que virou referência de inovação na produção independente.
Nos anos 90, junto com Fernando Meirelles e Andrea Barata Ribeiro, abriu a produtora O2 Filmes, hoje a maior produtora do Brasil. Depois de fazer comerciais e programas de TV, começou a fazer curtas e longas-metragens. Seu primeiro curta, LÁPIDE, ganhou o prêmio de melhor filme em quatro festivais, incluindo Havana, Los Angeles, Rio e São Paulo. Entre 99 e 2002, dirigiu dois longas, O PREÇO DA PAZ e VIVA VOZ.
Em 1999, foi convidado a dirigir O PREÇO DA PAZ com Lima Duarte, Giulia Gam, Herson Capri, José de Abreu, Camila Pitanga e Danton Mello. Com produção de Mauricio Appel e roteiro de Walther Negrão, o filme conta a história do Barão do Serro Azul, um homem de princípios que levou às últimas conseqüências suas convicções. No final do século XIX, o Barão pagou aos revolucionários Maragatos para que não destruíssem Curitiba. Depois, foi considerado traidor e teve sua história proibida por mais de 40 anos. O PREÇO DA PAZ fez parte da seleção oficial do Festival de Gramado de 2003.
Em 2001, produziu e dirigiu seu segundo longa-metragem, VIVA VOZ uma comédia de situações que se passa num único dia, em torno de uma única ligação de celular. Com Vivianne Pasmanter, Betty Gofman, Dan Stulbach e Graziella Moretto. VIVA VOZ ganhou o prêmio de Melhor Filme Internacional no New York Independent Film Festival. O longa será lançado em 21/05/04 pela Buena Vista International.
Filmografia
CINEMA
Lápide
O Preço da Paz (2002)
Viva Voz (2004)
ENTREVISTA
Sua paixão é contar histórias, sejam elas curtíssimas, curtas ou longas. Por que investir nas longas, já que Viva Voz é seu primeiro filme?
Porque o cinema sempre esteve nos meus planos. Eu sempre quis fazer. A publicidade foi a maneira que encontrei de chegar aonde eu quis e, ao mesmo tempo, desenvolver um trabalho gratificante e interessante.
Por que este hiato nas produções? Do curta Lápide (1997) para o longa O Preço da Paz (1999), que levou quatro anos para ser concluído, e Viva Voz (2004)? Chavões à parte, fazer cinema no Brasil ainda é muito difícil?
Não há nada mais difícil, mas nada mais gostoso. Ainda há muita dificuldade sim, muitos percalços a serem vencidos. Mas tudo é questão de tempo, de produção, de conseguir cumprir o planejado. O Preço da Paz, por exemplo, eu dirigi há quatro anos. E o produtor do filme, o Maurício Appel, está trabalhando no projeto do filme há pelo menos sete anos. Viva Voz foi filmado há três anos, mas só agora conseguimos concluí-lo.
Quais são suas mais importantes influências cinematográficas. Em quem busca inspiração?
Tenho um gosto eclético. Na infância via muitos filmes do neorealismo italiano. Assisti a filmes de Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Bernardo Bertolucci. Gosto muito desta maneira italiana de se fazer cinema, humano e poético. Mas também adorava o Cinema Russo, de Sergei Eisenstein a Pudovski, passando por Andrei Tarkovski. Akira Kurosawa também influenciou muito meu gosto por cinema. Mais atualmente, tenho acompanhado e gostado muito do novo cinema norte-americano. Cineastas como David Fincher, Paul Thomas Anderson, entre outros. Woody Allen também é um mestre. Os novos cineastas argentinos também têm demonstrado muito talento, como Filho da Noiva (Juan José Campanella) e Nove Rainhas (Fabián Bielinsky). O México também tem produzido ótimos filmes. Amores Brutos (Alejandro González Inárritu) e E Sua Mãe Também (Alfonso Cuarón) são ótimos exemplos do bom cinema atual.
Em Lápide, você já conta a história “um dia na vida de um casal”, em Viva Voz, a história também é focada numa única tarde. Você opta por histórias aparentemente simples para contar uma grande história no cinema? Como compará-los a O Preço da Paz?
Eu diria que Viva Voz é muito mais um humor farsesco que uma comédia de costumes. Lápide, que enfoca as discussões de um casal sobre o que fazer com um jazigo recém comprado, já tem um humor mais naturalista. Nele, o toque de humor fica por conta das palavras, calcado principalmente no roteiro. Acho ótimo poder contar boas histórias desta forma, engraçada e simples. Mas também me agradam outras linguagens, como de O Preço da Paz, que é um filme histórico, que contém uma narrativa muito mais lírica.
Depois da experiência mais que bem sucedida de Cidade de Deus, pela O2 Filmes, como é lançar Viva Voz? Há muita expectativa? Muita pressão?
A pressão é enorme! Muito porque é o “próximo filho da O2”, o que causa muita expectativa. Esta expectativa é boa porque as pessoas vão parar para prestar atenção no filme, mas também causa muitas comparações. E esta comparação pode ser negativa. Afinal, meu filme é uma comédia ácida, despretensiosa. Já Cidade de Deus tem toda uma conotação social. Na verdade, acho que a recepção do público será positiva. As pessoas estão abertas para novos filmes, novas formas de se fazer cinema. Viva Voz não tem grandes pretensões. Ou melhor, a pretensão, na verdade, é grande, é falar com o público. Quer maior que esta?
A O2 Filmes decidiu investir pesado em cinema. Como vê isso? Quais são os próximos projetos? Pode-se falar numa produção contínua, haja vista Domésticas, Cidade de Deus, Viva Voz.
Claro que pretendemos continuar investindo em cinema. Ser uma produtora de cinema é uma de nossas prioridades. Se tudo correr bem, vamos ter uma produção constante de longas e curta-metragens. Particularmente, pretendo investir em novos gêneros. Meu próximo filme deverá ser um drama, em cujo roteiro já estou trabalhando.
Ao contrário de O Preço da Paz, um filme histórico, Viva Voz é um filme atual, uma comédia urbana, ácida e sem pretensões sociológicas. Você tem preferência por algum dos dois gêneros? Quais as principais diferenças entre o modo, o dia-a-dia, das filmagens de cada um?
Não tenho preferência. Como já disse, agrada-me trabalhar em vários gêneros. Mas gosto muito do chamado “drama humano contemporâneo”. É por isso que meu próximo filme deverá se encaixar neste “gênero”. Mas filmes históricos também são muito interessantes de se trabalhar. No entanto, é inegável que uma história urbana e atual é sempre uma boa receita. Por ser mais barato e por “falar melhor” com o público. Sinto falta deste tipo de filme no cinema brasileiro, que fale diretamente com o brasileiro médio. Isso o cinema argentino já faz muito bem. A classe média brasileira também precisa se ver no cinema.
O cotidiano das filmagens é bem diferente. Viva Voz foi todo rodado em São Paulo, em Pinheiros, e no estúdio, praticamente não havia figurantes. Já O Preço da Paz demandou centenas de figurantes, figurino de época, tivemos de filmar em locações belíssimas, em Curitiba e nos cânions do Paraná. O trabalho é intenso, mas o resultado compensa.
Você já havia trabalhado com Luís Branquinho (diretor de fotografia) em comerciais. Por que escalá-lo para o cinema?
Escolhi o Branquinho porque ele já tem também experiência com fotografia no cinema e não porque ele é fotógrafo de publicidade, onde a fotografia é sempre mais glamourosa, há muito contra-luz, tudo é feito para valorizar, para se destacar o fundo, para ficar bonito. Viva Voz não é assim. Nem O Preço da Paz, que é um drama histórico. Para este filme, eu precisava de um fotógrafo que dominasse a estética européia. E Branquinho utilizou uma fotografia muito sóbria, sem brilhos.
Você não teme a já habitual crítica à apregoada estética publicitária? Afinal, você é também um diretor de publicidade.
Acho um preconceito enorme julgar um diretor pelo simples fato de que ele também trabalha com publicidade. É uma crítica muito reducionista. Se uso recursos da estética publicitária é porque ela me permite contar bem uma história. Em Viva Voz, por exemplo, eu divido a tela, uso fast e slow motion. Nem por isso deixa de ser cinema. Esta é uma discussão medíocre que não leva a nenhuma conclusão. Ótimos diretores, como Paul Thomas Anderson, utilizam recursos nesta linha e nem por isso deixam de produzir cinema de qualidade. A fotografia no cinema não tem de ser necessariamente naturalista. Há espaço para todo tipo de experimentação.
Como foi, até agora, a participação de Viva Voz nos festivais? Pretende apresentá-lo em mais algum?
Tivemos ótimas participações, como no Festival do Cinema Brasileiro de Paris e no 19º Festival do Filme Latino de Chicago. Além disso, ganhou o prêmio de melhor filme internacional no New York International Independent Film & Vídeo Festival. Não fiz um filme só para festivais. Acredito que Viva Voz dialoga bem com o público.
Como surgiu a idéia do argumento de Viva Voz? Como foi a criação do roteiro?
Surgiu quando, também por acaso, ouvi a conversa de amigos meus pelo celular. Eles, assim como Duda, não sabiam que estava sendo ouvidos. Na mesma hora achei que este tipo de incidente daria um bom argumento para um filme.



Gostei muito do Filme O Preço da Paz que tive a felicidade de ve-lo numa sessão especial aqui no Rio de Janeiro.Gostaria de saber porque um filme tão interessante como este não passou nos cinemas do Rio. Aguardo uma resposta e coloco-me a disposição no que puder ajudar para esta exibição. Grata. Lêda J. Silverio. Tel: 021-2513-8988.