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DAN STULBACH


O paulista Dan Stulbach, filho de um engenheiro e uma arquiteta poloneses, prestou vestibular para medicina, engenharia e administração de empresas.

Foi aprovado em todos. Mas o curso para ele era outro: teatro. Chegou a estudar um ano de engenharia, mas preferiu parar para passar uma temporada nos Estados Unidos, onde, entre outras coisas, foi bilheteiro e pipoqueiro de um cinema.

Na volta, resolveu cursar publicidade na Escola Superior de Marketing, onde montou um grupo teatral. Também criou coragem e foi estudar na EAD (Escola de Artes Dramáticas da USP). Mas só estudou lá por um ano. Foi chamado por uma amiga para ajudá-la num teste para uma montagem de Roberto Lage para Peer Gynt, de Ibsen. Acabou entrando no espetáculo e começou sua carreira profissional no teatro fazendo um protagonista. Em seguida, ele optou por literalmente trabalhar nos bastidores do teatro. Pediu e conseguiu um emprego na peça O Mistério de Irma Vap, onde era desde contra-regra até assistente de direção de Elias Andreato e Marco Nanini. Dan considera esta experiência crucial para sua carreira.

Mais tarde, trabalhou em Pentesiléias (1994), dirigido por Beth Coelho e Daniela Thomas, e Édipo, espetáculo em que fazia uma cena completamente nu. Também deu aulas de teatro amador, na quais, segundo ele, pôde errar e aprender muito. Destaca também o trabalho no grupo Tela Viva, em que, ao lado de amigos como Fábio Herford (o Monstro de Viva Voz), encenava em festas pequenas peças escritas a partir da vida de uma pessoa homenageada.

Na TV, seu primeiro papel importante foi em Os Maias, de Maria Adelaide Amaral. Em 2002, voltou a trabalhar com Luiz Fernando Carvalho, em Esperança. Em seguida, já foi escalado por Manuel Carlos para viver Marcos, em Mulheres Apaixonadas. Pela peça Novas Diretrizes em Tempos de Paz (com Tony Ramos), de Bosco Brasil, ganhou o Prêmio Shell e o APCA de Melhor Ator de Teatro de 2002.

No cinema, Dan já ganhou papéis de destaque em Cronicamente Inviável, de Sergio Bianchi, e Mater Dei, de Vinícius e Diogo Mainardi. Em Viva Voz, Dan é o protagonista Duda, um bom moço, como o próprio ator define. Extremamente inseguro, Duda conta com uma quantia de dinheiro que irá receber para mudar sua vida. Só não contava com uma ligação acidental de seu celular para sua mulher, no exato momento em que iria romper com a amante.

Para compor seus personagens, você utiliza conceitos com teorias psicanalíticas. Como sua afirmação sobre Marcos, de Mulheres Apaixonadas, “Num casal, você ama muito mais os defeitos do outro do que as suas qualidades…”. Em que você buscou inspiração para compor a personalidade, tão insegura, de Duda?
Para compor o Duda, eu fui buscar muita inspiração em pessoas e tipos que conheci. E criei um passado para ele. De onde ele vem, sua família, o porquê dele ser tão inseguro, suas responsabilidades. Isto me ajudou muito. É curioso porque o Duda e o Marcos são completamente diferentes, mas têm em comum a forte insegurança. Representam os rumos que a insegurança pode tomar na vida das pessoas. Mas nem o Marcos, nem o Duda, eu posso vê-los como babacas porque senão eu deixo de acreditar neles.

Seus pais são imigrantes poloneses, você já chegou a afirmar que sempre se sentiu um estrangeiro, um estranho. O jeitinho brasileiro, muitas vezes desonesto, tão criticado em Viva Voz, lhe causa este estranhamento? Ou para você isto é só uma questão cultural? Você se identifica com o Duda?
O “estranho” é no sentido de ter uma perspectiva mais múltipla de ver as coisas, o que só me acrescenta. Apesar da influência polonesa e do meu nome “estranho”, eu sou muito brasileiro. Viva Voz brinca e, ao mesmo tempo critica, com tudo que nós brasileiros gostaríamos de mudar no país. Esta relação estranha que temos com os impostos, a lei. Essa descrença que nos faz acabar burlando tudo.

O trabalho no Tela Viva lhe rendeu ótimas experiências, não? Você ainda continua com a atividade? Ou a novela tomou todo seu tempo? Duda tem alguma característica inspirada nos personagens das festas?
Com certeza me deu uma vivência riquíssima. Afinal, o ritmo de trabalho é frenético. A cada semana, temos de montar um personagem e uma peça totalmente nova. É uma nova pessoa, nova personalidade, lembranças. É muita responsabilidade encenar a vida de uma pessoa. Acabei me distanciando do Tela Viva na época da novela (Mulheres Apaixonadas), mas vou retomar em breve. É algo que gosto muito de fazer. O Duda tem um pouco de vários tipos que conheci, com certeza os tipos que interpretei no Tela Viva me ajudaram a compô-lo.

Seus papéis têm sido mais dramáticos que cômicos, como em Cronicamente Inviável e Mater Dei. Você tem preferência por algum dos dois gêneros? Faltam comédias no cinema nacional?
Eu gosto de fazer os dois. Minha formação de ator deve-se muito à comédia. Ultimamente é que venho fazendo muitos dramas. Mas é uma delícia poder encenar uma boa comédia como Viva Voz. Acho que faltam boas comédias adultas sim. Tenho uma teoria de que, como fazer cinema no Brasil ainda demanda tanto esforço, tempo e paciência, muitos diretores acabam se atendo a temas ditos “mais sérios”, mais densos, que contêm uma mensagem que eles gostariam de passar. É difícil dedicar tantos anos de vida a uma comédia. Acho a opção do Paulo (Morelli) muito corajosa.

Qual foi a sensação de fazer uma novela que chegou a dar 52 pontos de audiência? Você lida bem com a exposição? Acha isso bom para o filme? Vai ser bom ser visto numa comédia após ter feito um personagem tão dramático?
Entrar numa novela que deu tão certo quanto Mulheres Apaixonadas é uma honra. Não esperava ser escolhido para fazer o Marcos. Acho que ajuda o filme sim porque o papel me tornou mais conhecido. Mas vai ser um choque porque o público se acostumou a me ver como o vilão e no filme faço um cara completamente oposto. O Duda é um bom moço.

Seu agradecimento durante a premiação da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), em 2002, foi emocionante. Você se sente um ator mais completo com este reconhecimento? Ou ainda te falta para sua formação de ator?
Foi muito especial porque li uma carta “escrita por mim a mim mesmo” na década de 80, após assistir a uma premiação da APCA na qual participava o ator Paulo Autran. Naquele momento, esperava que um dia subisse ao palco para receber este mesmo prêmio e saberia, então, que seria um ator. Mais importante, saberia o porquê. Foi muito importante para que eu não esquecesse de onde vim, da minha trajetória até aquele dia. Foi muito significativo, me fez repensar toda minha carreira e perceber que ainda tenho muito o que aprender. Falta errar. Essa é a melhor maneira de aprender, tentar, acertar e errar.

Como foi trabalhar em Viva Voz? Como você foi escolhido para o papel.
Foi ótimo! Fui escolhido da maneira mais tradicional possível. Li o roteiro, gostei muito e já fui participar da leitura em grupo do roteiro. Já tinha o Duda na minha cabeça. Ele é um cara inseguro, mas boa gente. Quer fazer tudo certo, mas acaba cometendo vários erros.
Durante as filmagens, além de saber muito bem o que queria, o Paulo (Morelli) permitiu que déssemos muitos palpites e contribuições para o filme. Às vezes, eu e a Graziella (Moretto), com quem contracenei a maior parte do tempo, combinávamos uma piada e não avisávamos ninguém. Só na hora de filmar o pessoal ficava sabendo e várias vezes acabava caindo na gargalhada! Aliás, um ponto crucial foi que eu e a Graziella nos entrosamos muito bem. Ela me surpreendia várias vezes. Este frescor vai para o filme. Aliás, a comédia não pode envelhecer. Já o drama tem a vantagem de melhorar quando se repete, se aprofunda. A comédia nem sempre pode contar com isso. Além disso, o clima do set de filmagem era ótimo. Os egos se diluíram e todos trabalharam realmente juntos em prol do filme. Entendemos que a história é que deveria ser engraçada, não apenas nós. O próprio Marcio Alemão, o roteirista, visitou o set várias vezes e mexeu no roteiro conosco. Isto é muito bom.

Você já tem alguma proposta em vista? Pretende continuar a carreira no cinema?
Por enquanto nada certo. Mas quero sim continuar a fazer cinema. É uma experiência muito boa. Costumo dizer que, no teatro, tudo gira em torno do ator. Já no cinema, há um equilíbrio delicado entre elenco e técnica. Há a equipe que trabalha junto com você, os fios, as marcações… E depois de rodado, o filme ainda tem de ser montado. Mesmo assim, se você der a sorte de encontrar uma equipe bem enturmada, tudo dá certo. E isto felizmente aconteceu em Viva Voz. Quantas verdades são gastas para se fazer bem uma mentira! Cinema exige muita sabedoria, muita concentração do ator, pois a câmera está sempre muito próxima.


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