BETTY GOFMAN
Betty Gofman define-se como uma atriz intuitiva. Não costuma chegar com o personagem previamente formado e concluído antes de começar a ensaiar ou a filmar. Isso não denota falta de comprometimento com o personagem, mas liberdade para extrair de um tipo o que tanto a atriz quanto o diretor precisa que seja explorado. Por isso, ela afirma que sempre encarna o personagem com muita naturalidade. Tímida, mas ao mesmo tempo engraçada e bem-humorada, ela começou a se interessar pelo teatro enquanto observava a irmã, Rosane Gofman. Muito responsável desde sempre, ela pagava seus próprios cursos de teatro e teve apoio da família para ir atrás do que queria.
Apesar da forte formação teatral, foi na televisão que Betty passou boa parte da carreira. De Ti Ti Ti (1985) a O Beijo do Vampiro (2003), passando por Vila Madalena (1999) e até Direito de Amar (1987). Apesar de se tornar conhecida do grande público como uma atriz cômica, Betty não se considera uma comediante. Prova disso é que logo após fazer grande sucesso com a esperta criada Nicole em O Burguês Ridículo, peça dirigida por Guel Arraes e João Falcão pela qual recebeu o prêmio Shell de Melhor Atriz, foi convidada por Daniel Filho para viver uma alcoólatra no seriado Mulheres (1999).
No teatro, Betty acumula prêmios e experiência. Com a diretora Bia Lessa, a atriz pôde viajar para importantes festivais internacionais, como os Festivais Internacionais de Teatro da Alemanha e do Canadá, entre outros, representando o papel título do drama Orlando, de Vírginia Woolf. Experiências que, para ela, já valeram por toda a carreira.
No cinema, Betty pode se considerar uma atriz privilegiada. Já participou de produções como Amélia(1998), de Ana Carolina; Até Que A Vida Nos Separe (1999), de José Zaragoza; Cronicamente Inviável (1999), de Sérgio Bianchi e até foi dirigida pelo austríaco Herbert Brdl, no lírico Elipse, ao lado de Matheus Nachtergaele.
Você é sempre reconhecida por seus personagens cômicos, tanto na TV quanto no teatro e no cinema. Você se considera uma comediante? O que é fazer comédia para você?
Não me considero uma comediante. É claro que, como a maioria dos meus papéis na TV foi cômica, as pessoas tendem a me reconhecer por isso. Mas não quero ser uma comediante e sim uma atriz que faz comédias. Não posso reclamar porque eu faço todo tipo de personagem. Acho que comédia é um dom. Eu sou uma atriz muito intuitiva. Estudo, pesquiso o personagem, mas me deixo levar pelo clima, pelo o que o diretor quer de mim na hora da filmagem, do ensaio. Lembro de uma frase que disse quando recebi o prêmio da APCA pela peça O Burguês Ridículo: “Comédia é uma matemática intuitiva”. Isso porque você tem de usar sua intuição para deixar fluir o personagem, mas, ao mesmo tempo, tudo tem seu tempo exato para acontecer. Senão, perde-se a graça. Mas eu fico muito orgulhosa de ser reconhecida pelos meus personagens cômicos. É sinal de que fiz um bom trabalho.
Você começou muito cedo a fazer novelas. Participou até da primeira versão de Selva de Pedra. Você aprendeu muito com a TV, apesar de ter formado no Tablado?
Aprendi sim. Para falar daquela comparação clássica entre teatro, cinema e TV, acho que tem de ser lembrado que o teatro dá muito jogo de cintura para o ator lidar com os outros meios. Minha verdadeira escola foram meus trabalhos com a Bia Lessa. Ela sempre exigiu muito de mim. Mas tem o grande mérito de, além de ser uma ótima diretora, saber tirar do ator o que nem ele sabia que era capaz de fazer. Tendo esta experiência em teatro, tudo fica mais fácil na TV, onde tudo é mais sutil, onde a câmera te engole. Tudo passa a ser uma questão de sintonia fina. De saber dosar os gestos, as emoções.
Você acha que deveria haver mais comédias brasileiras no cinema?
Com certeza! Acho que temos muito o que consertar, mas sempre há espaço para o humor, para rirmos de nós mesmos. Um pouco disso eu diria que é por termos poucos bons roteiros de comédia. O Brasil possui ótimos, mas poucos, roteiristas de cinema. E isso se evidencia ainda mais na comédia, em que um roteiro competente é essencial.
Cronicamente Inviável é uma crítica mordaz ao jeitinho brasileiro. Você acredita que, de certa forma, Viva Voz também faz uma crítica, ainda que bem-humorada, às mazelas brasileiras?
Com certeza! Ainda que em forma de comédia, o filme não perdoa ninguém. Vai de encontro à esta característica ruim do brasileiro que quer sempre se dar bem em cima de alguém. Ninguém se salva em Viva Voz. O brasileiro é um povo muito bacana, mas tem este lado negativo. Há muita corrupção, muita falcatrua. Viva Voz escancara isso, mas sem fazer discurso.
Como foi a experiência de filmar Viva Voz? Como você foi escolhida para o papel?
Eu recebi o roteiro do Paulo (Morelli) e quando acabei de filmar fiquei louca! Na hora aceitei fazer o filme e acabei adiando as férias que estava planejando. Foi uma delícia filmar Viva Voz. O elenco foi muito bem escolhido, o roteiro funcionava muito bem. E o Paulo é um diretor ótimo, muito sutil, que sabe conduzir a ação. Minha única “decepção” foram as cenas que se passam dentro do carro. Quando li o roteiro, achei que ia ser tudo muito light, ficar só dentro do carro, “sentadinha”. Mas quando fomos para a ação, quase passei mal. Havia dias em que ficávamos praticamente o tempo todo dentro do carro, era uma prisão. Só saíamos de lá para comer e ir ao banheiro! Cinema exige muita paciência, muita concentração do ator. Mas valeu a pena. O entrosamento com os outros atores foi perfeito. É muito bom contracenar com quem “te passa bem a bola”, te ajuda a melhorar teu próprio personagem.
No cinema, você já filmou com Ana Carolina, Sérgio Bianchi, José Zaragoza. Como foi filmar com Paulo Morelli?
Foi ótimo. Eu me deixo muito levar pela mão do diretor, deixo que ele me mostre o que quer de mim, do meu personagem. Funcionou muito bem com o Paulo (Morelli) porque ele estava muito seguro do que queria em Viva Voz.
Você disse certa vez que sempre foi muito responsável, comportada até na adolescência. A comédia é uma forma de você liberar sua rebeldia, seu lado mais irreverente?
De certa forma sim. Para dizer a verdade, eu já sou muito moleca, muito palhaça no meu dia-a-dia mas, ao mesmo tempo, sempre fui muito responsável. Até mesmo na adolescência. Até brinco que me arrependo um pouco de não ter “enfiado mais o pé na jaca”. O momento em que entro em cena serve muitas vezes para eu descansar de mim mesma.
Você destacaria algum papel dramático? Há algum drama que gostaria de fazer?
Fiz vários, desde a dona de casa amargurada de Cronicamente Inviável até a alcoólatra do seriado Mulheres. Orlando (de Virginia Woolf ), sob a direção da Bia Lessa, me proporcionou muita emoção. Além de exigir muito de mim, foi com este personagem-título que passei por momentos que valem uma vida, momentos em festivais internacionais de teatro, na Alemanha, no Canadá, por exemplo, que valeram minha carreira. Sou uma atriz privilegiada por poder atuar em tantas áreas diferentes.


